A Pequena Sereia
(Hans Christian Andersen) e a “Pequena Peixe”
(...Bem sei da tua dificuldade
na terra, farei o possível
par a morar contigo na pedra
. )
A pedra mais alta – Teatro Mágico
“A Pequena Sereia é uma estória de um
amor intenso, mas impossível, marcada pela doação e pelo martírio. A sereia, um
ser marítimo, famosa pela bela voz e pelos sedutores cabelos...características
que encantam os marinheiros, que se apaixonam e deixam-se levar pelas criaturas
do oceano; se apaixona por um humano e no ardor da sua paixão, aceita vender
sua maior dádiva, sua bela voz, para uma bruxa, a troca de ter as tão
necessárias pernas, que a levariam ao encontro do seu grande amor.
Além de perder sua voz, a sereia
precisaria conquistar e casar-se com seu grande amor, caso contrário, ia se
transformar em espumas ao mar, já que abrira mão de sua imortalidade e as
sereias não têm alma, por isso, não podem morrer.
Ela sofreria também, ao caminhar, a dor de
facas penetrando seus pés.
Estes sofrimentos impostos, não
levaram a sereia apaixonada a desfazer seu plano de viver um grande amor.
Falhando em seu plano, já que o amado
ficou noivo de outra, a sereia estava condenada a um destino cruel, que se
consolidaria numa viagem de navio que ela fazia junto com outros convidados
para o casamento do jovem com sua noiva humana.
As irmãs da sereia procuram a bruxa e
buscam uma saída para a irmã: elas dariam seus cabelos em troca de um punhal
com o qual a sereia apaixonada deveria matar seu amado antes do casamento,
livrando-se assim, dos martírios que lhe estavam destinados.
Como o amor pelo jovem humano, falava
mais alto em seu coração que o amor pela vida, a pequena sereia deixa que os
noivos se casem e cumprindo sua sina, se transforma em espumas ao mar.
Uma estória triste sobre um amor que
levou a bela voz do mar a se calar e a dar a vida pelo homem amado, mesmo que
ele não lhe pertencesse ( e talvez nem lhe merecesse...)”
As sereias sempre me fascinaram, não tanto pela sua
beleza, mas pela sua dualidade frágil.
Dualidade essa que os piscianos conhecem tão bem...
Metade mulher ( da terra, da realidade, do mundo),
metade um ser do mar (etéreo, subjetivo, mutante,alheado,mágico).
Quando criança, sempre arrebatada pelo encantamento da
leitura, ganhei de minha mãe o livro da Pequena Sereia.
Adorei, era lindo, mas quando ela lia a estória
para mim , não me era possível ouvir na
íntegra por mais de cinco minutos.
Eu chorava e chorava e chorava e chorava...
Aquela sina
da pobre sereia me encantava e me dilacerava.
A lembrança
até hoje me conduz a mim mesma – criança
de 5 anos- molhando a capinha do pequeno livro verde azulado com as minhas lágrimas.
O drama da sereia me comovia, me doía
profundamente. Uma dor nova, mas que de alguma forma, me era familiar.
Agora, adulta, madura, (sobre) vivendo a segunda
metade da vida, talvez tenha descoberto porque aquela fábula me comovia tanto.
A Sereia não se adaptava à terra. Ela não conseguia
sobreviver na terra. Era uma estrangeira .
Quando andava com os pés no chão sentia dores
terríveis como facas que impunham um sofrimento contínuo àquela frágil
criatura.
Ser sereia em terra firme é andar na contramão...
(mas isso já é tema de uma outra história).

Fábula da Pequena Sereia me lembrou uma frase do Humberto Gessinger sutilmente citada em uma de suas canções: "Não viro vampiro, eu prefiro sangrar, me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar."
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