terça-feira, 11 de setembro de 2012




O melhor conto que escrevi, amo tanto que nem parece meu...:)





Ana e o Circo

Estou tendo uma liberdade íntima que só se compara a um cavalgar pelos campos afora. Estou livre de destino.
(Clarice Lispector)

Ana entrou na cozinha. A pia estava coberta de louça. A vassoura repousava solitária encostada na porta e o chão estava cheio de migalhas de pão. Dois guardanapos felpudos e estampados aguardavam por algo, pendurados na beira do fogão. Algumas laranjas e duas bananas descansavam dentro de uma travessa de vidro transparente colocada no centro da mesa redonda. A janela estava aberta e a brisa movimentava as cortinas melancolicamente. No ar, pairava um aroma suave de salsa e alecrim.
Todos os dias, o fardo da mesma rotina doméstica. Da sua maneira, Ana achava que era feliz. Vivia imaginando se existia algum outro tipo de vida além daquela cidadezinha, da sua pequena casa, do pátio gradeado e das paredes monótonas e brancas.
João, seu marido, chegava para o almoço pontualmente às doze e quarenta, depois chegava Júlia, a filha mais nova e Carlos, o outro filho. Todos sentavam à mesa, trocavam algumas frases escassas e devoravam a comida. Após o ritual previsível do almoço, cada um seguia para o seu mundo, restando Ana e as panelas vazias e sujas, o cheiro dos temperos entranhado nas mãos, os pratos engordurados e manchados de feijão, os copos vazios e a palidez de espanto dos guardanapos de papel.
Foi assim durante muito tempo. Até  uma  certa tarde.
Ana lavava a louça, alheada em pensamentos errantes, quando ouviu uma música vibrante, palmas enérgicas, vozes alegres. Despertou da inércia, arrancou o avental, calçou os chinelos, abriu rapidamente o portão e correu até a esquina.
O caminhão tomava conta da rua. Era enorme e colorido, cheio de cartazes e bandeirinhas. O circo tinha chegado à cidade.
Em uma jaula, desfilava o leão (um felino impassível), depois vinha o palhaço distribuindo balas e sorrisos, os cabelos vermelhos e esvoaçantes, a roupa larga, listrada com azul e branco. Depois, a bailarina cheia de encantos, bela e etérea. Em seguida, o malabarista, o domador e o trapezista. Este tinha um charme especial e um olhar cheio de promessas. Usava uma roupa justa, negra e brilhante.
O primeiro espetáculo seria naquela noite, às nove horas.
Ana ficou maravilhada. Nunca tinha visto o circo, somente na televisão. Nada no mundo a impediria de ir à estréia.

João chegou do trabalho, às sete e meia, rabugento e cansado, jantou e ficou sentado em frente à televisão, hipnotizado por uma partida de futebol. Os óculos dançando na ponta do nariz, as mãos grandes e grosseiras abrindo com força uma garrafa de cerveja.
¾ João, vou ao circo ¾ disparou Ana.
João não respondeu.
¾ João! João,estou saindo, vou ao circo ¾ insistiu Ana.
O homem levantou a cabeça e surpreendeu-se  ao ver a esposa arrumada com seu melhor vestido, perfumada com aroma de jasmim, os cabelos cuidadosamente presos num coque, os lábios úmidos e rosados, sapatos de salto alto combinando com a bolsa preta.
¾ O que? Tu vais naquela porcaria de circo? E precisa se arrumar desse jeito? Não estou gostando dessa história ¾ rosnou o marido. ¾ Pára com isso, mulher, vai arranjar alguma coisa de útil pra fazer! Circo...era só o que faltava ¾ protestou João, enchendo um copo com cerveja até a borda.
¾ Eu vou, João ¾ sentenciou Ana. ¾ Vou e não vai adiantar tu ficares reclamando. Até mais ¾ finalizou, pegando a chave em cima da mesa e caminhando, decidida, em direção à porta.
¾ Então vai, mulher, vai bobear com estas coisas de cidade grande! Mas vê se não esquece de passar a minha camisa branca que eu preciso usar amanhã lá na firma ¾ esbravejou o homem batendo com a garrafa vazia em cima da mesa.
           
 Ana sentou-se na segunda fila. As cadeiras já estavam quase todas tomadas, mas ela conseguiu um bom lugar com visão privilegiada de todo o cenário. Não podia perder nenhum detalhe. Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para as nove, a hora mágica. As mãos úmidas e frias agarravam a bolsa com firmeza. Às nove horas e cinco minutos a luz apagou-se e os tambores rufaram. O coração de Ana disparou. Ela prendeu a respiração e fechou os olhos. Quando os abriu, viu quatro bailarinas, leves como um balão de gás, flutuarem no picadeiro. Pareciam voar. O espetáculo tinha começado e uma emoção sem limites tomou conta dela.
Veio o mágico, depois os palhaços, o globo (da vida) e da morte, o domador e o leão, os trapezistas que desafiavam o perigo e Ana, magnetizada pela força viva daquele espetáculo foi arrebatada pelo novo. A fantasia rasgava a pele da realidade. Tudo era perfeito, colorido e harmonioso como um sonho bom. A magia e a sedução do circo se derramavam na vida estreita de Ana com a fúria e a grandeza de uma tempestade.
Na plenitude da descoberta, sabia que alguma coisa dentro dela, naquele momento, se transformava. Uma nova percepção era inaugurada. Êxtase. Absoluto. Uma  outra (e desconhecida) mulher, que vivia sufocada dentro daquela pacata dona de casa, emergira. Sua alma acercava-se de um sentimento pungente de ruptura e evasão.
Embalada pela música e pelas luzes, Ana viajava por outras realidades longínquas, mas possíveis.
Enfim, o espetáculo terminou, mas para Ana apenas havia começado. Ela voltou à consciência e retornou para casa. Estava distante. Ainda fazia o almoço e lavava a louça. Mas não era como antes.
O marido e os filhos não reconheciam a mesma Ana.
Em uma noite, o circo partiu para sempre.
E Ana partiu com ele. Não podia mais fingir, já não cabia naquela rotina. Transfigurada, atendeu ao apelo do sonho, ao chamado da vida.
Seria imperfeita se ficasse.


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