O melhor conto que escrevi, amo tanto que nem parece meu...:)
Ana e o Circo
Estou tendo uma liberdade íntima que só se compara a
um cavalgar pelos campos afora. Estou livre de destino.
(Clarice Lispector)
Ana entrou na cozinha. A
pia estava coberta de louça. A vassoura repousava solitária encostada na porta
e o chão estava cheio de migalhas de pão. Dois guardanapos felpudos e
estampados aguardavam por algo, pendurados na beira do fogão. Algumas laranjas
e duas bananas descansavam dentro de uma travessa de vidro transparente
colocada no centro da mesa redonda. A janela estava aberta e a brisa
movimentava as cortinas melancolicamente. No ar, pairava um aroma suave de
salsa e alecrim.
Todos os dias, o fardo da
mesma rotina doméstica. Da sua maneira, Ana achava que era feliz. Vivia
imaginando se existia algum outro tipo de vida além daquela cidadezinha, da sua
pequena casa, do pátio gradeado e das paredes monótonas e brancas.
João, seu marido, chegava
para o almoço pontualmente às doze e quarenta, depois chegava Júlia, a filha
mais nova e Carlos, o outro filho. Todos sentavam à mesa, trocavam algumas
frases escassas e devoravam a comida. Após o ritual previsível do almoço, cada
um seguia para o seu mundo, restando Ana e as panelas vazias e sujas, o cheiro
dos temperos entranhado nas mãos, os pratos engordurados e manchados de feijão,
os copos vazios e a palidez de espanto dos guardanapos de papel.
Foi assim durante muito
tempo. Até uma certa tarde.
Ana lavava a louça, alheada
em pensamentos errantes, quando ouviu uma música vibrante, palmas enérgicas,
vozes alegres. Despertou da inércia, arrancou o avental, calçou os chinelos,
abriu rapidamente o portão e correu até a esquina.
O caminhão tomava conta da
rua. Era enorme e colorido, cheio de cartazes e bandeirinhas. O circo tinha
chegado à cidade.
Em uma jaula, desfilava o
leão (um felino impassível), depois vinha o palhaço distribuindo balas e
sorrisos, os cabelos vermelhos e esvoaçantes, a roupa larga, listrada com azul
e branco. Depois, a bailarina cheia de encantos, bela e etérea. Em seguida, o
malabarista, o domador e o trapezista. Este tinha um charme especial e um olhar
cheio de promessas. Usava uma roupa justa, negra e brilhante.
O primeiro espetáculo seria
naquela noite, às nove horas.
Ana ficou maravilhada.
Nunca tinha visto o circo, somente na televisão. Nada no mundo a impediria de
ir à estréia.
João chegou do trabalho, às
sete e meia, rabugento e cansado, jantou e ficou sentado em frente à televisão,
hipnotizado por uma partida de futebol. Os óculos dançando na ponta do nariz,
as mãos grandes e grosseiras abrindo com força uma garrafa de cerveja.
¾ João, vou ao circo ¾
disparou Ana.
João não respondeu.
¾ João! João,estou saindo,
vou ao circo ¾
insistiu Ana.
O homem levantou a cabeça e
surpreendeu-se ao ver a esposa arrumada
com seu melhor vestido, perfumada com aroma de jasmim, os cabelos
cuidadosamente presos num coque, os lábios úmidos e rosados, sapatos de salto
alto combinando com a bolsa preta.
¾ O que? Tu vais naquela
porcaria de circo? E precisa se arrumar desse jeito? Não estou gostando dessa
história ¾
rosnou o marido. ¾
Pára com isso, mulher, vai arranjar alguma coisa de útil pra fazer! Circo...era
só o que faltava ¾
protestou João, enchendo um copo com cerveja até a borda.
¾ Eu vou, João ¾
sentenciou Ana. ¾
Vou e não vai adiantar tu ficares reclamando. Até mais ¾ finalizou, pegando a
chave em cima da mesa e caminhando, decidida, em direção à porta.
¾ Então vai, mulher, vai
bobear com estas coisas de cidade grande! Mas vê se não esquece de passar a
minha camisa branca que eu preciso usar amanhã lá na firma ¾ esbravejou
o homem batendo com a garrafa vazia em cima da mesa.
Ana sentou-se na segunda
fila. As cadeiras já estavam quase todas tomadas, mas ela conseguiu um bom
lugar com visão privilegiada de todo o cenário. Não podia perder nenhum
detalhe. Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para as nove, a hora mágica.
As mãos úmidas e frias agarravam a bolsa com firmeza. Às nove horas e cinco
minutos a luz apagou-se e os tambores rufaram. O coração de Ana disparou. Ela
prendeu a respiração e fechou os olhos. Quando os abriu, viu quatro bailarinas,
leves como um balão de gás, flutuarem no picadeiro. Pareciam voar. O espetáculo
tinha começado e uma emoção sem limites tomou conta dela.
Veio o mágico, depois os
palhaços, o globo (da vida) e da morte, o domador e o leão, os trapezistas que
desafiavam o perigo e Ana, magnetizada pela força viva daquele espetáculo foi arrebatada
pelo novo. A fantasia rasgava a pele da realidade. Tudo era perfeito, colorido
e harmonioso como um sonho bom. A magia e a sedução do circo se derramavam na
vida estreita de Ana com a fúria e a grandeza de uma tempestade.
Na plenitude da descoberta,
sabia que alguma coisa dentro dela, naquele momento, se transformava. Uma nova
percepção era inaugurada. Êxtase. Absoluto. Uma outra (e desconhecida) mulher, que vivia
sufocada dentro daquela pacata dona de casa, emergira. Sua alma acercava-se de
um sentimento pungente de ruptura e evasão.
Embalada pela música e
pelas luzes, Ana viajava por outras realidades longínquas, mas possíveis.
Enfim, o espetáculo terminou,
mas para Ana apenas havia começado. Ela voltou à consciência e retornou para
casa. Estava distante. Ainda fazia o almoço e lavava a louça. Mas não era como
antes.
O marido e os filhos não
reconheciam a mesma Ana.
Em uma noite, o circo
partiu para sempre.
E Ana partiu com ele. Não
podia mais fingir, já não cabia naquela rotina. Transfigurada, atendeu ao apelo
do sonho, ao chamado da vida.
Seria imperfeita se
ficasse.