terça-feira, 30 de outubro de 2012



Gato e eu.
O cavalo mais especial, mais terno e mais singelo que eu conheço.
Lindo Gato.

Quero um cavalo de várias cores
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores? .



Reinaldo Ferreira



terça-feira, 16 de outubro de 2012


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade




"Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-"Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda". Foram as palavras da primeira de cinco cartas de amor que Soror Mariana Alcoforado escreveu ao oficial francês Chamilly, durante a Guerra da Restauração. Temeroso, saiu de Portugal mas prometera mandar buscá-la. Na sua espera, em vão, Mariana Alcoforado, escreveu algumas das mais belas e controversas cartas de amor que chocaram a sociedade conservadora da época.






Me tomam por tomada
 a mim se dou
 meu peito e meu convento
 em troca de mais nada
 que alheava andava
 tão alheada andava
 Me davam por freira
 conformada
 no hábito que habito
 ou habitava
 que alheada andava
 tão alheada andava

(Novas Cartas Portuguesas)


Linda história de amor da Marina Alcoforado. Vendo a Gabriela, choro em ver a Gerusa presa naquele convento longe do Mundinho Falcão. Naqueles tempos tantas Gerusas, tantas Marianas e tanto amor verdadeiro reprimido e contido...

Hoje, tudo fácil, tudo tão disponível e tão provisório, fez esvaziar-se o encanto...
Tanto falso amor liberado, tão raso, tão descartável.

Vazio e Solidão.

Mesmo sozinha,prisioneira do convento Mariana-Gerusa via sua solidão acompanhada pela certeza do amor correspondido. Hoje vemos as mulheres tão, soltas,"avulsas", liberadas e modernas... eternas solitárias em meio à uma multidão sem rosto mendigando algum afeto...

Triste realidade do mundo "moderno".
Desencontro.
Desencanto.


"Descompasso, Desperdício, 
Herdeiros são agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho,

Não me lembro

Não lembro..."

(Legião Urbana - Há tempos)





quinta-feira, 4 de outubro de 2012


Os D i f e r e n t e s – Artur da Távola

Diferente não é quem o pretende ser. Este é um imitador do que ainda não foi imitado, mas nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns ‘mais’ e alguns ‘menos’ em hora, no momento e lugar errado. Para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E do medo de não agüentarem, caso um dia venham a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas sempre é confundido com ele por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias são adiadas; esperanças são mortas.
Um diferente medroso, este sim acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes entendem por que os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razões sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porquê de quem o agride.
O diferente pago sempre o preço de estar – mesmo sem o querer – alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente agüenta no lombo a ira do irremediavelmente igual, a inveja do comum, o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que sempre está certo.
O diferente começa a sofrer cedo, desde o primário, onde todos os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns professores por omissão (principalmente os mais grossos), se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial, em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em “ – puxa, fulano, como você é complicado”. O que é embrião de um estilo próprio em “ – Você está vendo como é que todo mundo faz?”
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações nos quais acaba transformando-se. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformam nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.
Diferente é o que: engorda mais um pouco; chora, onde outros xingam; estuda, onde outros burram. Quer, onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria, onde o hábito rotiniza. Sofre, onde outros ganham.
Diferente é o que: fica doente onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supunha. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala sempre nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer gol, porque gosta mais de jogar do que ganhar.
Diferente é o que aprendeu a superar o riso, o deboche, o escárnio e a consciência dolorosa de que a mídia é má, porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos; paralíticos; machucados; engordados; magros demais; bonitos demais; inteligentes em excesso; bons demais para aquele cargo; excepcionais: narigudos; barrigudos; joelhudos; de pé grande; feios; de roupas erradas; cheios de espinhas; os diferentes aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, ‘sendo’ muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. A estrela dos diferentes tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos que forem capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão os maiores tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois.

People Are Strange – The Doors
Pessoas são estranhas quando você é um estranho
Rostos olham feio quando você está sozinho
Mulheres parecem cruéis quando você é indesejado
Ruas são irregulares quando você está pra baixo
Quando você é um estranho, rostos saem da chuva
Quando você é um estranho, ninguém lembra seu nome
Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho
Pessoas ficam estranhas quando você é um estranho
Rostos olham feio quando você está sozinho
Mulheres parecem malvadas quando você é indesejado
As ruas são irregulares quando você está pra baixo
Quando você é um estranho, rostos saem da chuva
Quando você é um estranho, ninguém lembra seu nome
Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho
Pessoas ficam estranhas quando você é um estranho
Rostos olham feio quando você está sozinho
Mulheres parecem cruéis quando você é indesejado
As ruas são irregulares quando você está pra baixo
Quando você é um estranho, rostos saem da chuva
Quando você está estranho, ninguém se lembra de seu nome
Quando você é um estranho, quando você é um estranho, quando você é estranho

terça-feira, 2 de outubro de 2012


A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.
Victor Hugo
"Te ver e não te querer, é improvável, é impossível,Te ter e ter que esquecer,é insuportável,é dor incrível"
Ternura. Essa é palavra.Muito mais que um contato dos corpos, um verdadeiro encontro de almas.Para sempre, nem que seja apenas na memória...