sexta-feira, 20 de julho de 2012



Meu conto que recebeu Menção Honrosa no Concurso Glória Literária - Pelotas 200 anos promovido pela Academia Pelotense de Letras. Agradeço à minha prima e comadre Stela e minha tia Norma que me incentivaram e me apoiaram para que este conto nascesse.


Ao Sul das ilusões

Mil novecentos e oitenta e sete. A cidade era ainda uma pacata Princesa, repousando tranquila no Sul do Rio Grande. Sóbria e iluminada, vivia a juventude retratada nos olhos de Lara e Anna. O tão desejado ingresso na faculdade, festas universitárias, passeios na Praça Coronel Pedro Osório e na Avenida Bento Gonçalves, final de tarde no “Quadrado”e na praia do Laranjal. Os cenários da “princesa” embalavam os ingênuos sonhos das duas. Ainda meninas, meio mulheres. Povoadas de incertezas, angústias, inseguranças, dúvidas. Ávidas por viver de forma intensa e obstinada, descobrindo as delícias e os dilemas próprios da juventude.
Dezessete anos. Imaturas, embaladas pelas músicas da época desfilavam sua alegria e arrebatamento pelas planas ruas de uma Pelotas serena, cheia de beleza e doçura. Pouco se ouvia falar em assaltos, em violência urbana. O ritmo das ruas era tranquilo e previsível. O trânsito, organizado. As pessoas andavam sem medo até altas horas da noite. Inesquecíveis trajetos percorridos. Pensionato do Colégio São José (onde Lara morava), Catedral do Redentor, confeitarias da Rua Quinze de Novembro, Grande Hotel, Galeria Central, Calçadão da Rua Andrade Neves... Lembranças que não se apagam, como tudo o que passou, impressos da alma. Gerações se sucedem e algumas falhas na memória próprias da maturidade já denunciam o passar dos anos, mas aquele oásis de emoção continua ancorado nas águas tênues da memória.
Era domingo e Anna tinha acordado há poucos minutos. Ainda não sabia se tinha sonhado ou se eram apenas lembranças que invadiam, como torrentes, o seu estado consciente. Já rondavam seus quarenta anos e, com dificuldade de vislumbrar um futuro, recordava um passado distante cheio de encantamento. Cada rua do Centro de Pelotas remetia a uma doce recordação de um tempo de alegria e cumplicidade dividido com a prima. Como esquecer aquela sexta-feira, que encerrava o ritual monótono da semana, dia preferido de todo o estudante? A madrugada fria pedia um bom casacão de lã, mas para que serve um agasalho quando uma jovem quer aparentar elegância, sem levar nada nas mãos? Somente aquele vestido cinza, com meia-calça da mesma cor poderia suportar os dez graus que marcavam mais um inverno. Para garantir mais calor à parte superior do corpo, até mesmo a construção de um macacão improvisado por baixo do vestido valia: meia-calça nas pernas e outra no tronco, fundilho cortado para enfiar a cabeça, pés abertos para servirem de punhos. Se a costura das meias se unia à mão na hora de sair, construindo um ingênuo cinto de castidade, não importava. Era sexta-feira. Coisas de menina em corpo de mulher... a única regra: parecer elegante e atraente.
Naquela noite, as duas tinham escolhido o bar da moda do ano de mil novecentos e oitenta e sete: "Cais entre Nós". Na rua Gonçalves Chaves, próximo ao estádio do Pelotas, o bar era ponto de encontro dos jovens da época. Com mezanino e construção alternativa exibia tijolos à vista que remetiam a uma atmosfera moderna e sedutora. As músicas traduziam o comportamento despojado e o gingar dos corpos sedentos de diversão parecia mais vibrante ao som de “New Sensation”, da banda INXS, clássica dos anos oitenta. A quadra do Estádio do Pelotas era efervescente naquela época, o retrato de uma cidade universitária que pulsava vibrante. Os jovens se concentravam na Avenida Bento Gonçalves e todos os finais de semana anunciavam noites de euforia e aventura.Não havia perigo, a diversão era certa e as noites eram belas e serenas.
Dentro do bar, uma única pergunta ecoava na cabeça de Lara, “Como chamar a atenção das pessoas?” Ninguém sabia que debaixo daquele vestido fechado cinzento havia um cinto de castidade... Cerveja aos dezessete, dezoito anos nem pensar. Lara fez a primeira tentativa, pediu que um rapaz acendesse aquele cigarro que dava bossa, "grau", como se dizia na época. Ela tirou um Gudan Garan do bolso para impressionar. A relíquia tinha vindo de Rivera especialmente para essa finalidade. Depois do cigarro não havia mais o que fazer para atrair a atenção dos mais velhos. Afinal, “duas gurias” de dezessete anos, no meio de um monte de gente de mais de vinte dava a sensação de completa invisibilidade...
Já sei! Cama de gato!!! Lara teve a ideia. Um cordãozinho na bolsa fazia parte do arsenal de objetos destinados a chamar a atenção. Vez ou outra aparecia algum candidato para desvendar o entrecruzar dos dedos, que traçavam desenhos previsíveis, e que remetiam aos melhores momentos da infância. As tentativas foram muitas, até as duas primas perceberem que já era hora de sair do bar e se dirigir a uma boate. Coisa de gente grande! Dinheiro para táxi ninguém tinha, então a solução era ir a pé, na companhia de uma amiga baixinha que tinha vindo de Alegrete para estudar Comunicação em Pelotas. Bons tempos eram aqueles em que atravessar a Praça Coronel Pedro Osório à uma hora da manhã era possível. Bastava olhar para os lados e atravessar na diagonal, passando pelo chafariz. Aquela noite em Pelotas era linda, o céu estrelado e o luar faziam com que aquele chafariz se destacasse ainda mais, o prédio imponente da Prefeitura Municipal adormecido e solitário, a beleza única do Teatro Sete de Abril imerso no silêncio da noite, o Prédio do Grande Hotel reinando absoluto em toda aquela esquina,depois o percurso pela rua Gonçalves Chaves, um desfile de prédios históricos que aliavam a tradição de um cultura imponente à modernidade de uma cidade universitária.Depois de passar por tantos pontos da cidade, as duas chegaram ao seu destino. Nada melhor do que um ambiente onde são encontrados os estudantes da “Federal”. Não era fim de semana de funcionamento da Leiga, festa dos estudantes da Medicina, mas a “Boate da Odonto” bastava. O prédio da Odonto era um dos mais altos da cidade, ponto de referência da cidade, mas a boate funcionava no fundo do pátio, em um pequeno porão muito simples, mas cheio de promessas, mistérios e encantos.A luminosidade era escassa e tantos eram os estudantes atraentes que as duas se rendiam ao encantamento.Na chegada da festa, uma surpresa. O rapaz mais bonito chama Lara na porta e diz: - Esta pode entrar de graça, mas vai ter que ficar comigo!
Satisfeita, ela entra como se erguesse um troféu que estampasse "Eu tenho um par". Dentro da festa, não foi bem assim. Depois de um único beijo, o bonitão disse que iria ao banheiro e sumiu, para um tempo depois ser reconhecido outra vez na porta, dando passagem à outra guria. Lara e Anna ainda não sabiam que aquele acontecimento era só uma sutil amostra dos desencontros amorosos que viriam depois... Mas isso, já seria assunto para contar outra história. Enquanto isso, Anna trocava olhares com um rapaz mais velho, aparentando uns vinte e seis anos. Já era veterano do curso de veterinária. Homem bonito, olhos verdes, mas dono de um ar de loucura. Ele citava palavras sem nexo ao som de "Besta é Tu" e "Preta, Pretinha", de Os Novos Baianos, som clássico do lugar.
A cidade que atraía gente de todos os lugares do Brasil buscando uma vaga nas universidades fascinava com seus cinemas, teatros, tesouros arquitetônicos, fachadas históricas, clima subtropical e promessas de muita diversão, cultura e arte. Doces de herança portuguesa, resgate da essência de uma sociedade de fortes tradições culturais. Mãe de tantos filhos ilustres, Pelotas também foi uma mãe amorosa para muitos estudantes que vieram construir sua vida por aqui. Muitos vieram e foram embora, como Lara, outros vieram e não conseguiram ir embora, apaixonados pela cidade.
De repente, Anna despertou de suas lembranças. Não conseguiu desenhar na memória como acabou aquela noite das duas gurias na boate da Odonto. Talvez elas tenham voltado para a casa realizadas e felizes, talvez tenham acordado no outro dia frustradas com mais uma noite em que nada aconteceu como elas desejavam, pois acalentavam sonhos românticos que raramente se concretizavam.
Do lado do sofá, Anna olhou a foto onde ela aparecia sorridente abraçada ao seu afilhado José, o filho de Lara. Próximo dos dezoito anos, ele entraria na Faculdade e viria morar em Pelotas.Mais um jovem descobrindo a princesa. Mais um capítulo que se inicia. O tempo sempre é novo, ele se reinventa e inaugura a todo o instante, novas histórias.
Pelotas já não é a mesma, as pessoas também não.
Agora é o tempo de José.

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