Meu conto que recebeu Menção Honrosa no Concurso Glória Literária - Pelotas 200 anos promovido pela Academia Pelotense de Letras. Agradeço à minha prima e comadre Stela e minha tia Norma que me incentivaram e me apoiaram para que este conto nascesse.
Ao
Sul das ilusões
Mil
novecentos e oitenta e sete. A cidade era ainda uma pacata Princesa, repousando
tranquila no Sul do Rio Grande. Sóbria e iluminada, vivia a juventude retratada
nos olhos de Lara e Anna. O tão desejado ingresso na faculdade, festas universitárias,
passeios na Praça Coronel Pedro Osório e na Avenida Bento Gonçalves, final de
tarde no “Quadrado”e na praia do Laranjal. Os cenários da “princesa” embalavam
os ingênuos sonhos das duas. Ainda meninas, meio mulheres. Povoadas de
incertezas, angústias, inseguranças, dúvidas. Ávidas por viver de forma intensa
e obstinada, descobrindo as delícias e os dilemas próprios da juventude.
Dezessete
anos. Imaturas, embaladas pelas músicas da época desfilavam sua alegria e
arrebatamento pelas planas ruas de uma Pelotas serena, cheia de beleza e
doçura. Pouco se ouvia falar em assaltos, em violência urbana. O ritmo das ruas
era tranquilo e previsível. O trânsito, organizado. As pessoas andavam sem medo
até altas horas da noite. Inesquecíveis trajetos percorridos. Pensionato do
Colégio São José (onde Lara morava), Catedral do Redentor, confeitarias da Rua
Quinze de Novembro, Grande Hotel, Galeria Central, Calçadão da Rua Andrade
Neves... Lembranças que não se apagam, como tudo o que passou, impressos da
alma. Gerações se sucedem e algumas falhas na memória próprias da maturidade já
denunciam o passar dos anos, mas aquele oásis de emoção continua ancorado nas
águas tênues da memória.
Era
domingo e Anna tinha acordado há poucos minutos. Ainda não sabia se tinha
sonhado ou se eram apenas lembranças que invadiam, como torrentes, o seu estado
consciente. Já rondavam seus quarenta anos e, com dificuldade de vislumbrar um
futuro, recordava um passado distante cheio de encantamento. Cada rua do Centro
de Pelotas remetia a uma doce recordação de um tempo de alegria e cumplicidade dividido
com a prima. Como esquecer aquela sexta-feira, que encerrava o ritual monótono
da semana, dia preferido de todo o estudante? A madrugada fria pedia um bom
casacão de lã, mas para que serve um agasalho quando uma jovem quer aparentar
elegância, sem levar nada nas mãos? Somente aquele vestido cinza, com
meia-calça da mesma cor poderia suportar os dez graus que marcavam mais um
inverno. Para garantir mais calor à parte superior do corpo, até mesmo a
construção de um macacão improvisado por baixo do vestido valia: meia-calça nas
pernas e outra no tronco, fundilho cortado para enfiar a cabeça, pés abertos
para servirem de punhos. Se a costura das meias se unia à mão na hora de sair,
construindo um ingênuo cinto de castidade, não importava. Era sexta-feira.
Coisas de menina em corpo de mulher... a única regra: parecer elegante e
atraente.
Naquela
noite, as duas tinham escolhido o bar da moda do ano de mil novecentos e
oitenta e sete: "Cais entre Nós". Na rua Gonçalves Chaves, próximo ao
estádio do Pelotas, o bar era ponto de encontro dos jovens da época. Com
mezanino e construção alternativa exibia tijolos à vista que remetiam a uma
atmosfera moderna e sedutora. As músicas traduziam o comportamento despojado e
o gingar dos corpos sedentos de diversão parecia mais vibrante ao som de “New
Sensation”, da banda INXS, clássica dos anos oitenta. A quadra do Estádio do
Pelotas era efervescente naquela época, o retrato de uma cidade universitária
que pulsava vibrante. Os jovens se concentravam na Avenida Bento Gonçalves e
todos os finais de semana anunciavam noites de euforia e aventura.Não havia
perigo, a diversão era certa e as noites eram belas e serenas.
Dentro
do bar, uma única pergunta ecoava na cabeça de Lara, “Como chamar a atenção das
pessoas?” Ninguém sabia que debaixo daquele vestido fechado cinzento havia um
cinto de castidade... Cerveja aos dezessete, dezoito anos nem pensar. Lara fez
a primeira tentativa, pediu que um rapaz acendesse aquele cigarro que dava
bossa, "grau", como se dizia na época. Ela tirou um Gudan Garan do
bolso para impressionar. A relíquia tinha vindo de Rivera especialmente para
essa finalidade. Depois do cigarro não havia mais o que fazer para atrair a
atenção dos mais velhos. Afinal, “duas gurias” de dezessete anos, no meio de um
monte de gente de mais de vinte dava a sensação de completa invisibilidade...
Já
sei! Cama de gato!!! Lara teve a ideia. Um cordãozinho na bolsa fazia parte do
arsenal de objetos destinados a chamar a atenção. Vez ou outra aparecia algum
candidato para desvendar o entrecruzar dos dedos, que traçavam desenhos
previsíveis, e que remetiam aos melhores momentos da infância. As tentativas
foram muitas, até as duas primas perceberem que já era hora de sair do bar e se
dirigir a uma boate. Coisa de gente grande! Dinheiro para táxi ninguém tinha,
então a solução era ir a pé, na companhia de uma amiga baixinha que tinha vindo
de Alegrete para estudar Comunicação em Pelotas. Bons tempos eram aqueles em
que atravessar a Praça Coronel Pedro Osório à uma hora da manhã era possível.
Bastava olhar para os lados e atravessar na diagonal, passando pelo chafariz. Aquela
noite em Pelotas era linda, o céu estrelado e o luar faziam com que aquele chafariz
se destacasse ainda mais, o prédio imponente da Prefeitura Municipal adormecido
e solitário, a beleza única do Teatro Sete de Abril imerso no silêncio da
noite, o Prédio do Grande Hotel reinando absoluto em toda aquela esquina,depois
o percurso pela rua Gonçalves Chaves, um desfile de prédios históricos que
aliavam a tradição de um cultura imponente à modernidade de uma cidade
universitária.Depois de passar por tantos pontos da cidade, as duas chegaram ao
seu destino. Nada melhor do que um ambiente onde são encontrados os estudantes
da “Federal”. Não era fim de semana de funcionamento da Leiga, festa dos
estudantes da Medicina, mas a “Boate da Odonto” bastava. O prédio da Odonto era
um dos mais altos da cidade, ponto de referência da cidade, mas a boate
funcionava no fundo do pátio, em um pequeno porão muito simples, mas cheio de
promessas, mistérios e encantos.A luminosidade era escassa e tantos eram os
estudantes atraentes que as duas se rendiam ao encantamento.Na chegada da
festa, uma surpresa. O rapaz mais bonito chama Lara na porta e diz: - Esta pode
entrar de graça, mas vai ter que ficar comigo!
Satisfeita,
ela entra como se erguesse um troféu que estampasse "Eu tenho um
par". Dentro da festa, não foi bem assim. Depois de um único beijo, o
bonitão disse que iria ao banheiro e sumiu, para um tempo depois ser
reconhecido outra vez na porta, dando passagem à outra guria. Lara e Anna ainda
não sabiam que aquele acontecimento era só uma sutil amostra dos desencontros
amorosos que viriam depois... Mas isso, já seria assunto para contar outra história.
Enquanto isso, Anna trocava olhares com um rapaz mais velho, aparentando uns
vinte e seis anos. Já era veterano do curso de veterinária. Homem bonito, olhos
verdes, mas dono de um ar de loucura. Ele citava palavras sem nexo ao som de
"Besta é Tu" e "Preta, Pretinha", de Os Novos Baianos, som
clássico do lugar.
A
cidade que atraía gente de todos os lugares do Brasil buscando uma vaga nas
universidades fascinava com seus cinemas, teatros, tesouros arquitetônicos,
fachadas históricas, clima subtropical e promessas de muita diversão, cultura e
arte. Doces de herança portuguesa, resgate da essência de uma sociedade de
fortes tradições culturais. Mãe de tantos filhos ilustres, Pelotas também foi
uma mãe amorosa para muitos estudantes que vieram construir sua vida por aqui.
Muitos vieram e foram embora, como Lara, outros vieram e não conseguiram ir
embora, apaixonados pela cidade.
De
repente, Anna despertou de suas lembranças. Não conseguiu desenhar na memória
como acabou aquela noite das duas gurias na boate da Odonto. Talvez elas tenham
voltado para a casa realizadas e felizes, talvez tenham acordado no outro dia
frustradas com mais uma noite em que nada aconteceu como elas desejavam, pois
acalentavam sonhos românticos que raramente se concretizavam.
Do
lado do sofá, Anna olhou a foto onde ela aparecia sorridente abraçada ao seu
afilhado José, o filho de Lara. Próximo dos dezoito anos, ele entraria na
Faculdade e viria morar em Pelotas.Mais um jovem descobrindo a princesa. Mais
um capítulo que se inicia. O tempo sempre é novo, ele se reinventa e inaugura a
todo o instante, novas histórias.
Pelotas
já não é a mesma, as pessoas também não.
Agora
é o tempo de José.

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