terça-feira, 31 de julho de 2012

Stuart Little

Não sei quanto o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou

O mundo pra mim...

Não sei se esse mundo está são

Mas pro mundo que eu vim já não era
Meu mundo não teria razão

Se não fosse o STOO!  

(Nando Reis - Espatódea)

sexta-feira, 27 de julho de 2012



Cometa bobagens. 

Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. 
Cometa bobagens. 
Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. 
Cometa bobagens. 
Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. 

Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. 

Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você. Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. 
Volte tarde. 
Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. 
Cometa bobagens. 
Ninguém lembra do que foi normal. 
Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. 

É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade.

(Fabrício Carpinejar)

quinta-feira, 26 de julho de 2012




“Eu quero mesmo é alguém que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão.”






... existe a quem falte o delicado essencial. 

(A Hora da Estrela- Clarice Lispector)

sexta-feira, 20 de julho de 2012


DIA DO AMIGO



Amigo, a família que eu escolhi.

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde foi um dramaturgo, escritor e poeta irlandês.



Meu conto que recebeu Menção Honrosa no Concurso Glória Literária - Pelotas 200 anos promovido pela Academia Pelotense de Letras. Agradeço à minha prima e comadre Stela e minha tia Norma que me incentivaram e me apoiaram para que este conto nascesse.


Ao Sul das ilusões

Mil novecentos e oitenta e sete. A cidade era ainda uma pacata Princesa, repousando tranquila no Sul do Rio Grande. Sóbria e iluminada, vivia a juventude retratada nos olhos de Lara e Anna. O tão desejado ingresso na faculdade, festas universitárias, passeios na Praça Coronel Pedro Osório e na Avenida Bento Gonçalves, final de tarde no “Quadrado”e na praia do Laranjal. Os cenários da “princesa” embalavam os ingênuos sonhos das duas. Ainda meninas, meio mulheres. Povoadas de incertezas, angústias, inseguranças, dúvidas. Ávidas por viver de forma intensa e obstinada, descobrindo as delícias e os dilemas próprios da juventude.
Dezessete anos. Imaturas, embaladas pelas músicas da época desfilavam sua alegria e arrebatamento pelas planas ruas de uma Pelotas serena, cheia de beleza e doçura. Pouco se ouvia falar em assaltos, em violência urbana. O ritmo das ruas era tranquilo e previsível. O trânsito, organizado. As pessoas andavam sem medo até altas horas da noite. Inesquecíveis trajetos percorridos. Pensionato do Colégio São José (onde Lara morava), Catedral do Redentor, confeitarias da Rua Quinze de Novembro, Grande Hotel, Galeria Central, Calçadão da Rua Andrade Neves... Lembranças que não se apagam, como tudo o que passou, impressos da alma. Gerações se sucedem e algumas falhas na memória próprias da maturidade já denunciam o passar dos anos, mas aquele oásis de emoção continua ancorado nas águas tênues da memória.
Era domingo e Anna tinha acordado há poucos minutos. Ainda não sabia se tinha sonhado ou se eram apenas lembranças que invadiam, como torrentes, o seu estado consciente. Já rondavam seus quarenta anos e, com dificuldade de vislumbrar um futuro, recordava um passado distante cheio de encantamento. Cada rua do Centro de Pelotas remetia a uma doce recordação de um tempo de alegria e cumplicidade dividido com a prima. Como esquecer aquela sexta-feira, que encerrava o ritual monótono da semana, dia preferido de todo o estudante? A madrugada fria pedia um bom casacão de lã, mas para que serve um agasalho quando uma jovem quer aparentar elegância, sem levar nada nas mãos? Somente aquele vestido cinza, com meia-calça da mesma cor poderia suportar os dez graus que marcavam mais um inverno. Para garantir mais calor à parte superior do corpo, até mesmo a construção de um macacão improvisado por baixo do vestido valia: meia-calça nas pernas e outra no tronco, fundilho cortado para enfiar a cabeça, pés abertos para servirem de punhos. Se a costura das meias se unia à mão na hora de sair, construindo um ingênuo cinto de castidade, não importava. Era sexta-feira. Coisas de menina em corpo de mulher... a única regra: parecer elegante e atraente.
Naquela noite, as duas tinham escolhido o bar da moda do ano de mil novecentos e oitenta e sete: "Cais entre Nós". Na rua Gonçalves Chaves, próximo ao estádio do Pelotas, o bar era ponto de encontro dos jovens da época. Com mezanino e construção alternativa exibia tijolos à vista que remetiam a uma atmosfera moderna e sedutora. As músicas traduziam o comportamento despojado e o gingar dos corpos sedentos de diversão parecia mais vibrante ao som de “New Sensation”, da banda INXS, clássica dos anos oitenta. A quadra do Estádio do Pelotas era efervescente naquela época, o retrato de uma cidade universitária que pulsava vibrante. Os jovens se concentravam na Avenida Bento Gonçalves e todos os finais de semana anunciavam noites de euforia e aventura.Não havia perigo, a diversão era certa e as noites eram belas e serenas.
Dentro do bar, uma única pergunta ecoava na cabeça de Lara, “Como chamar a atenção das pessoas?” Ninguém sabia que debaixo daquele vestido fechado cinzento havia um cinto de castidade... Cerveja aos dezessete, dezoito anos nem pensar. Lara fez a primeira tentativa, pediu que um rapaz acendesse aquele cigarro que dava bossa, "grau", como se dizia na época. Ela tirou um Gudan Garan do bolso para impressionar. A relíquia tinha vindo de Rivera especialmente para essa finalidade. Depois do cigarro não havia mais o que fazer para atrair a atenção dos mais velhos. Afinal, “duas gurias” de dezessete anos, no meio de um monte de gente de mais de vinte dava a sensação de completa invisibilidade...
Já sei! Cama de gato!!! Lara teve a ideia. Um cordãozinho na bolsa fazia parte do arsenal de objetos destinados a chamar a atenção. Vez ou outra aparecia algum candidato para desvendar o entrecruzar dos dedos, que traçavam desenhos previsíveis, e que remetiam aos melhores momentos da infância. As tentativas foram muitas, até as duas primas perceberem que já era hora de sair do bar e se dirigir a uma boate. Coisa de gente grande! Dinheiro para táxi ninguém tinha, então a solução era ir a pé, na companhia de uma amiga baixinha que tinha vindo de Alegrete para estudar Comunicação em Pelotas. Bons tempos eram aqueles em que atravessar a Praça Coronel Pedro Osório à uma hora da manhã era possível. Bastava olhar para os lados e atravessar na diagonal, passando pelo chafariz. Aquela noite em Pelotas era linda, o céu estrelado e o luar faziam com que aquele chafariz se destacasse ainda mais, o prédio imponente da Prefeitura Municipal adormecido e solitário, a beleza única do Teatro Sete de Abril imerso no silêncio da noite, o Prédio do Grande Hotel reinando absoluto em toda aquela esquina,depois o percurso pela rua Gonçalves Chaves, um desfile de prédios históricos que aliavam a tradição de um cultura imponente à modernidade de uma cidade universitária.Depois de passar por tantos pontos da cidade, as duas chegaram ao seu destino. Nada melhor do que um ambiente onde são encontrados os estudantes da “Federal”. Não era fim de semana de funcionamento da Leiga, festa dos estudantes da Medicina, mas a “Boate da Odonto” bastava. O prédio da Odonto era um dos mais altos da cidade, ponto de referência da cidade, mas a boate funcionava no fundo do pátio, em um pequeno porão muito simples, mas cheio de promessas, mistérios e encantos.A luminosidade era escassa e tantos eram os estudantes atraentes que as duas se rendiam ao encantamento.Na chegada da festa, uma surpresa. O rapaz mais bonito chama Lara na porta e diz: - Esta pode entrar de graça, mas vai ter que ficar comigo!
Satisfeita, ela entra como se erguesse um troféu que estampasse "Eu tenho um par". Dentro da festa, não foi bem assim. Depois de um único beijo, o bonitão disse que iria ao banheiro e sumiu, para um tempo depois ser reconhecido outra vez na porta, dando passagem à outra guria. Lara e Anna ainda não sabiam que aquele acontecimento era só uma sutil amostra dos desencontros amorosos que viriam depois... Mas isso, já seria assunto para contar outra história. Enquanto isso, Anna trocava olhares com um rapaz mais velho, aparentando uns vinte e seis anos. Já era veterano do curso de veterinária. Homem bonito, olhos verdes, mas dono de um ar de loucura. Ele citava palavras sem nexo ao som de "Besta é Tu" e "Preta, Pretinha", de Os Novos Baianos, som clássico do lugar.
A cidade que atraía gente de todos os lugares do Brasil buscando uma vaga nas universidades fascinava com seus cinemas, teatros, tesouros arquitetônicos, fachadas históricas, clima subtropical e promessas de muita diversão, cultura e arte. Doces de herança portuguesa, resgate da essência de uma sociedade de fortes tradições culturais. Mãe de tantos filhos ilustres, Pelotas também foi uma mãe amorosa para muitos estudantes que vieram construir sua vida por aqui. Muitos vieram e foram embora, como Lara, outros vieram e não conseguiram ir embora, apaixonados pela cidade.
De repente, Anna despertou de suas lembranças. Não conseguiu desenhar na memória como acabou aquela noite das duas gurias na boate da Odonto. Talvez elas tenham voltado para a casa realizadas e felizes, talvez tenham acordado no outro dia frustradas com mais uma noite em que nada aconteceu como elas desejavam, pois acalentavam sonhos românticos que raramente se concretizavam.
Do lado do sofá, Anna olhou a foto onde ela aparecia sorridente abraçada ao seu afilhado José, o filho de Lara. Próximo dos dezoito anos, ele entraria na Faculdade e viria morar em Pelotas.Mais um jovem descobrindo a princesa. Mais um capítulo que se inicia. O tempo sempre é novo, ele se reinventa e inaugura a todo o instante, novas histórias.
Pelotas já não é a mesma, as pessoas também não.
Agora é o tempo de José.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Loucura e Alegria!!!


Qualquer coisa ainda não experimentada! Qualquer coisa em transe!
Escapar totalmente aos grilhões e âncoras dos outros!
Libertar-me! Amar livremente! Arremeter perigosa e imprudentemente!
Cortejar a destruição com zombarias e convites!
Ascender, galgar os céus do amor que foi indicado para mim!
Subir até lá com minha alma inebriada!
Perder-me, se preciso for!
Alimentar o resto da vida com uma hora de completude e liberdade!
Com uma hora breve de loucura e alegria.


                                                 (Walt Withman)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Daqui até a eternidade...





Stoo e Flor 

O amor de um cão supera tudo porque não se apega a detalhes, a orgulhos, a egos mal resolvidos. O cão simplesmente ama com sua espontaneidade e ternura de cão. Ele  não tem espaço para coisas menores em seu coração, não finge, não joga, é transparente e demonstra seus sentimentos sem o menor pudor, sem medo, sem barreiras. São lindos seus gestos, sinceros seus movimentos, cheio de significados o seu olhar.Cada cão e sua personalidade, suas sutilezas,seu carisma...Ele não se importa se você é feio ou bonito, pobre ou rico, "dê o seu coração a um cão e ele simplesmente lhe dará o dele".O amor de um cão é eterno e transborda as barreiras do tempo e do espaço. A alma de um cão é nobre e pura. O cão é a essência do mais límpido.O cão é uma das mais perfeitas representações da presença de Deus no mundo.

A Chama da Vela - Do imaginário ao imaginante alheio aos apelos da realidade...

Que vejo eu, tu e todos numa vela? É um fascínio. E a luz acesa,... num quarto escuro, ... em noite cerrada ..., fala-nos de solidão. Remete-nos para o nosso passado de histórias encantadas. Transporta-nos para um outro mundo, o da imaginação e olhando lá bem do fundo ficamos à espera que o sonhador noturno, ou desesperado diurno, apague a luz e vá descansar num sono profundo. (...)


Gaston Bachelard




Momentos

O que me inquieta a alma é constatar o quanto são frágeis e breves os bons momentos vividos.


Queremos que eles durem para sempre, nos agarramos a eles para suportar o dia a dia, mas eles se eternizam  apenas no poço da memória... Eles tem um mundo próprio do que foi vivido e não volta mais...


Lá, protegidos da banalidade, eles sobrevivem -suspensos- como um clarão de luz que corta a realidade e nos faz sorrir, silenciosa e secretamente.


"Infinitamente belos, insuportavelmente efêmeros".

Palavras de Fernando Pessoa

"Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."

Fernando Pessoa