quinta-feira, 25 de julho de 2013

Ana e o Circo em nova roupagem...



Ana e o Circo

Estou tendo uma liberdade íntima que só se compara a um cavalgar pelos campos afora. Estou livre de destino.
(Clarice Lispector)
Ana entrou na cozinha. A pia estava cheia de louça. A vassoura repousava solitária encostada na porta e o chão estava coberto por um tapete improvisado por migalhas de pão. Dois guardanapos felpudos e estampados aguardavam por algo, pendurados na beira do fogão. Algumas laranjas e duas bananas descansavam dentro de uma travessa de vidro transparente colocada no centro da mesa redonda. O relógio de parede branco pálido denunciava as horas. A janela estava aberta e uma brisa mansa movimentava as cortinas melancolicamente. No ar, pairava um aroma suave de salsa e alecrim.
Todos os dias, o fardo da mesma rotina doméstica. Da sua maneira, Ana achava que era feliz. Entregava-se às suas tarefas, desempenhando um papel discreto de esposa e mãe. Vivia imaginando se existiria algum outro tipo de vida além daquela cidadezinha, da sua pequena casa, do pátio gradeado e das paredes monótonas e brancas.
Ela sonhava. Em certas noites acordava de súbito porque tinha a sensação de ter viajado para muito longe. Mas, não tinha medo, cultivava uma certeza de que seu mundo não era aquele no qual ela vivia. Havia outras dimensões, havia algo desconhecido e intenso muito mais vivo do que seus olhos eram capazes de ver. Olhava o marido dormindo, roncando, virado para a parede e tentava adormecer pensando no que tinha sonhado.

João, seu marido, chegava para o almoço pontualmente às doze e quarenta, depois chegava Júlia, a filha mais nova e Carlos, o  filho mais velho. Todos sentavam à mesa, trocavam algumas frases escassas e devoravam a comida. Após o ritual previsível do almoço, cada um seguia para o seu mundo, restando Ana e as panelas vazias e sujas, o cheiro dos temperos entranhado nas mãos, os pratos engordurados e manchados de feijão, os copos vazios e a palidez dos guardanapos de papel que nunca eram usados. Foi assim durante muito tempo.
Até uma certa tarde.
Ana lavava a louça, alheada em pensamentos errantes, quando ouviu uma música vibrante, palmas enérgicas, vozes alegres. Estava muito quente e o brilho do sol dominava o céu. Uma sensação de urgência a despertou da inércia. Arrancou o avental, calçou os chinelos, abriu rapidamente o portão e correu até a esquina.
Viu um caminhão que tomava conta da rua. Era enorme e colorido, cheio de cartazes e bandeirinhas. Absoluto. O circo tinha chegado à cidade.
Ana sentiu-se sonhando acordada.
Em uma jaula, desfilava o leão (um felino impassível), depois vinha o palhaço distribuindo balas e sorrisos, os cabelos vermelhos e esvoaçantes, a roupa larga, listrada de azul e branco esbanjando alegria. Depois, a bailarina vestida de rosa cheia de encantos, bela e etérea. Em seguida, o malabarista, o domador e o trapezista. Este tinha um charme especial e um olhar cheio de promessas. Usava uma roupa justa, negra e brilhante.
O primeiro espetáculo seria naquela noite, às vinte e uma horas.
Ana ficou arrebatada. Contemplou o imprevisto. Nunca tinha visto o circo, somente na televisão. A curiosidade e a inquietação tomaram conta dela. Nada no mundo a impediria de ir à estréia.

João chegou do trabalho, às  dezenove e trinta, rabugento e cansado, devorou o jantar e ficou sentado em frente à televisão, hipnotizado por mais uma partida de futebol. Os óculos de grau velhos dançando na ponta do nariz, o cabelo grisalho e mal penteado, as mãos grandes e grosseiras abriam com força uma garrafa de cerveja enquanto ele balbuciava algumas frases soltas sobre o jogo.
¾ João,vou ao circo ¾ disparou Ana.
João não respondeu.
¾ João! João,estou saindo, vou ao circo - insistiu Ana. O homem levantou a cabeça e surpreendeu-se ao ver a esposa delicadamente arrumada com seu melhor vestido (um tecido leve e estampado) perfumada com aroma de jasmim, os cabelos cuidadosamente presos num coque, os lábios úmidos e rosados, sapatos de salto alto combinando com a bolsa preta, pequena e discreta.
¾ O que? Tu vais naquela porcaria de circo? E precisa se arrumar desse jeito? Não estou gostando dessa história ¾ rosnou o marido. ¾ Pára com isso, mulher, vai arranjar alguma coisa de útil pra fazer! Circo! Era só o que faltava ¾ protestou João, enchendo um copo com cerveja até a borda.
¾ Eu vou, João ¾ sentenciou Ana. ¾ Vou e não vai adiantar tu ficares reclamando. Até mais ¾ finalizou, pegando a chave em cima da mesa e caminhando, decidida, em direção à porta.
¾ Então vai, mulher, vai bobear com estas coisas que essa gente de cidade grande inventa! Mas, vê se não te esquece de passar a minha camisa branca que eu preciso usar amanhã lá na firma ¾ esbravejou o homem batendo com a garrafa vazia em cima da mesa.
           

Ana caminhou muito rápido, depois de quatro quadras, avistou o circo. Foi até a bilheteria iluminada, comprou o ingresso e meio sem jeito, entrou sem pedir licença. Sentou-se na segunda fila. As cadeiras já estavam quase todas tomadas, mas ela conseguiu um bom lugar com visão privilegiada de todo o cenário.
Não podia perder nenhum detalhe. Tudo era inédito e importante. Olhou o relógio. Faltavam cinco minutos para começar. Era a hora mágica. As mãos úmidas e frias agarravam a bolsa com firmeza. Mantinha os grandes olhos castanhos e expressivos fixos no picadeiro. Às vinte e uma horas e cinco minutos a luz apagou-se e os tambores rufaram. O coração de Ana acelerou. Ela prendeu a respiração e fechou os olhos. Quando os abriu, viu quatro bailarinas, leves como um balão de gás, flutuarem no picadeiro. Pareciam voar. O espetáculo tinha começado e a emoção tomou conta dela.
Em seguida, veio o mágico, os palhaços, o globo (da vida) e da morte, o domador e o leão, os trapezistas que zombavam do perigo e Ana, magnetizada pela força viva daquele espetáculo, era arrebatada pelo novo. A fantasia rasgava a pele da realidade. Tudo era perfeito, colorido e harmonioso como um sonho bom. A magia, a liberdade e a sedução do circo se derramavam na vida estreita de Ana com a fúria e a grandeza de uma tempestade.
Na plenitude da descoberta, sabia que alguma coisa dentro dela, naquele momento, se transformava. Epifania.
Uma nova percepção era inaugurada. Êxtase. Uma outra (e desconhecida) mulher, que vivia submersa na pele daquela pacata dona de casa, emergira. Sua alma acercava-se de um sentimento pungente de ruptura e evasão.
Embalada pela música e pelas luzes, Ana viajava por outras realidades longínquas, mas possíveis.
Enfim, o espetáculo terminou, mas, para Ana, apenas havia começado. Ela voltou à consciência e retornou lentamente ao mundo real caminhando para casa na chuva. Uma chuva mansa e morna de verão que era como um presságio.

Naquela noite teve sonhos coloridos e belíssimos. No outro dia, acordou sentindo-se estrangeira. Estava distante. Ainda suportava as tarefas domésticas, coava o café, despejava o lixo e repetia o ritual do almoço. Na superfície do previsível,  lavava a louça, mas nada era como antes. Ana era febre e desejo em sua ausência.
Somente o circo fazia sentido.
O marido e os filhos não reconheciam a mesma Ana. Admirados, apenas viam a imagem daquela mulher apartada deles, silenciosa e sozinha em seus pensamentos.
Passou-se uma semana, Ana cada vez mais longe...
Em uma noite, o circo partiu para sempre. E Ana partiu com ele.
Não podia mais fingir, já não cabia naquela rotina.
Transfigurada, atendeu ao apelo do sonho, ao chamado da vida.
Seria imperfeita se ficasse.


A vocês, eu deixo o sono. O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!


(Paulo Leminski)
Sorriso...
"Quem sorri o tempo todo não é feliz, é cínico".
Todos os sentidos despertam e se harmonizam no devaneio poético.
(A Poética do Devaneio - Gaston Bachelard)

sexta-feira, 19 de julho de 2013



Se você quer viver uma vida feliz,
associe-a a um ideal,
não a pessoas ou coisas.

(Albert Einstein) 

terça-feira, 9 de julho de 2013


...apaixonada pelo tema...

Características de Adultos “Índigo”



Em geral, adultos “índigo” demonstram as seguintes características combinadasNÃO aleatórias, ou seja, TODAS as características ou QUASE TODAS devem estar presentes para “configurá-los”:
  • São inteligentes, mas não necessariamente obtiveram as melhores notas escolares;
  • são muito criativos e adoram criar coisas;
  • perguntam geralmente “por quê”, sempre que lhes pedem para fazer algo;
  • sentem raiva e aversão pelas tarefas que consideram “velhas”, repetitivas ou de memorização;
  • foram “rebeldes” na escola, questionando a autoridade dos professores ou desejavam imensamente ser “rebeldes”, mas a pressão dos pais não os animava;
  • tiveram uma adolescência problemática;
  • experimentaram muito cedo a depressão existencial e o sentimento de vulnerabilidade, desde o sentimento de tristeza até o completo desespero;
  • tiveram ideias (e até tentativas) de suicídio muito cedo;
  • têm dificuldades em desenvolver trabalhos orientados a tarefas “servis”, têm resistência à autoridade e aos sistemas de empregos hierárquicos;
  • têm profunda simpatia pelos outros, porém são intolerantes frente àquilo que consideram inaceitável;
  • são extremamente emocionais, o que inclui um choro repentino (quando não desenvolveram escudo) ou pelo contrário, não demonstram nenhuma emoção (desenvolveram um escudo);
  • têm problemas para administrar emoções como “desgosto” ou “raiva”;
  • têm problemas de ordem com a maioria dos sistemas políticos, educacionais, médicos e legais;
  • sentem raiva ou fúria quando seus direitos são desrespeitados;
  • sentem uma necessidade urgente de fazer algo que “mude o mundo” para melhorá-lo segundo os seus parâmetros;
  • têm capacidades psíquicas ou espirituais desde pequenos: tiveram experiências como premonições, em “ver anjos”, em “ouvir vozes”, etc;
  • têm uma forte intuição;
  • têm padrões mentais  ou de comportamento aparentemente desorganizados e pouco usuais;
  • apresentam dificuldades em concentrar-se em tarefas, principalmente as “impostas”;
  • são vistos como “esquisitos” perante sua família e amigos;
  • buscam o significado da vida na religião, grupos espirituais, livros, grupos de auto-ajuda e outros;
  • defendem, perseveram e são consistentes em suas ideias.
Adaptado de vários sites  e então compilado a partir de vários workshops com adultos ministrados pela Fundación INDI-GO, Quito, fevereiro de 2003.