Inquieta
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Ana e o Circo em nova roupagem...
Ana e o
Circo
Estou tendo uma liberdade íntima que só se
compara a um cavalgar pelos campos afora. Estou livre de destino.
(Clarice Lispector)
Ana entrou na
cozinha. A pia estava cheia de louça. A vassoura repousava solitária encostada
na porta e o chão estava coberto por um tapete improvisado por migalhas de pão.
Dois guardanapos felpudos e estampados aguardavam por algo, pendurados na beira
do fogão. Algumas laranjas e duas bananas descansavam dentro de uma travessa de
vidro transparente colocada no centro da mesa redonda. O relógio de parede
branco pálido denunciava as horas. A janela estava aberta e uma brisa mansa
movimentava as cortinas melancolicamente. No ar, pairava um aroma suave de
salsa e alecrim.
Todos os dias, o
fardo da mesma rotina doméstica. Da sua maneira, Ana achava que era feliz. Entregava-se
às suas tarefas, desempenhando um papel discreto de esposa e mãe. Vivia
imaginando se existiria algum outro tipo de vida além daquela cidadezinha, da
sua pequena casa, do pátio gradeado e das paredes monótonas e brancas.
Ela sonhava. Em
certas noites acordava de súbito porque tinha a sensação de ter viajado para
muito longe. Mas, não tinha medo, cultivava uma certeza de que seu mundo não
era aquele no qual ela vivia. Havia outras dimensões, havia algo desconhecido e
intenso muito mais vivo do que seus olhos eram capazes de ver. Olhava o marido
dormindo, roncando, virado para a parede e tentava adormecer pensando no que
tinha sonhado.
João, seu marido,
chegava para o almoço pontualmente às doze e quarenta, depois chegava Júlia, a
filha mais nova e Carlos, o filho mais
velho. Todos sentavam à mesa, trocavam algumas frases escassas e devoravam a
comida. Após o ritual previsível do almoço, cada um seguia para o seu mundo,
restando Ana e as panelas vazias e sujas, o cheiro dos temperos entranhado nas
mãos, os pratos engordurados e manchados de feijão, os copos vazios e a palidez
dos guardanapos de papel que nunca eram usados. Foi assim durante muito tempo.
Até uma certa tarde.
Ana lavava a louça,
alheada em pensamentos errantes, quando ouviu uma música vibrante, palmas
enérgicas, vozes alegres. Estava muito quente e o brilho do sol dominava o céu.
Uma sensação de urgência a despertou da inércia. Arrancou o avental, calçou os
chinelos, abriu rapidamente o portão e correu até a esquina.
Viu um caminhão que
tomava conta da rua. Era enorme e colorido, cheio de cartazes e bandeirinhas.
Absoluto. O circo tinha chegado à cidade.
Ana sentiu-se
sonhando acordada.
Em uma jaula,
desfilava o leão (um felino impassível), depois vinha o palhaço distribuindo
balas e sorrisos, os cabelos vermelhos e esvoaçantes, a roupa larga, listrada
de azul e branco esbanjando alegria. Depois, a bailarina vestida de rosa cheia
de encantos, bela e etérea. Em seguida, o malabarista, o domador e o
trapezista. Este tinha um charme especial e um olhar cheio de promessas. Usava
uma roupa justa, negra e brilhante.
O primeiro espetáculo
seria naquela noite, às vinte e uma horas.
Ana ficou arrebatada.
Contemplou o imprevisto. Nunca tinha visto o circo, somente na televisão. A
curiosidade e a inquietação tomaram conta dela. Nada no mundo a impediria de ir
à estréia.
João chegou do
trabalho, às dezenove e trinta,
rabugento e cansado, devorou o jantar e ficou sentado em frente à televisão,
hipnotizado por mais uma partida de futebol. Os óculos de grau velhos dançando
na ponta do nariz, o cabelo grisalho e mal penteado, as mãos grandes e
grosseiras abriam com força uma garrafa de cerveja enquanto ele balbuciava
algumas frases soltas sobre o jogo.
¾ João,vou ao circo ¾ disparou Ana.
João não respondeu.
¾ João! João,estou saindo, vou ao circo - insistiu
Ana. O homem levantou a cabeça e surpreendeu-se ao ver a esposa delicadamente arrumada
com seu melhor vestido (um tecido leve e estampado) perfumada com aroma de
jasmim, os cabelos cuidadosamente presos num coque, os lábios úmidos e rosados,
sapatos de salto alto combinando com a bolsa preta, pequena e discreta.
¾ O que? Tu vais naquela porcaria de circo? E
precisa se arrumar desse jeito? Não estou gostando dessa história ¾ rosnou o marido. ¾ Pára com isso, mulher, vai
arranjar alguma coisa de útil pra fazer! Circo! Era só o que faltava ¾ protestou João, enchendo um
copo com cerveja até a borda.
¾ Eu vou, João ¾ sentenciou Ana. ¾ Vou e não vai adiantar tu ficares
reclamando. Até mais ¾
finalizou, pegando a chave em cima da mesa e caminhando, decidida, em direção à
porta.
¾ Então vai, mulher, vai bobear com estas
coisas que essa gente de cidade grande inventa! Mas, vê se não te esquece de
passar a minha camisa branca que eu preciso usar amanhã lá na firma ¾ esbravejou o homem batendo
com a garrafa vazia em cima da mesa.
Ana caminhou muito
rápido, depois de quatro quadras, avistou o circo. Foi até a bilheteria
iluminada, comprou o ingresso e meio sem jeito, entrou sem pedir licença. Sentou-se
na segunda fila. As cadeiras já estavam quase todas tomadas, mas ela conseguiu
um bom lugar com visão privilegiada de todo o cenário.
Não podia perder
nenhum detalhe. Tudo era inédito e importante. Olhou o relógio. Faltavam cinco
minutos para começar. Era a hora mágica. As mãos úmidas e frias agarravam a
bolsa com firmeza. Mantinha os grandes olhos castanhos e expressivos fixos no
picadeiro. Às vinte e uma horas e cinco minutos a luz apagou-se e os tambores
rufaram. O coração de Ana acelerou. Ela prendeu a respiração e fechou os olhos.
Quando os abriu, viu quatro bailarinas, leves como um balão de gás, flutuarem
no picadeiro. Pareciam voar. O espetáculo tinha começado e a emoção tomou conta
dela.
Em seguida, veio o mágico, os palhaços,
o globo (da vida) e da morte, o domador e o leão, os trapezistas que zombavam do
perigo e Ana, magnetizada pela força viva daquele espetáculo, era arrebatada
pelo novo. A fantasia rasgava a pele da realidade. Tudo era perfeito, colorido
e harmonioso como um sonho bom. A magia, a liberdade e a sedução do circo se
derramavam na vida estreita de Ana com a fúria e a grandeza de uma tempestade.
Na plenitude da
descoberta, sabia que alguma coisa dentro dela, naquele momento, se
transformava. Epifania.
Uma nova percepção
era inaugurada. Êxtase. Uma outra (e desconhecida) mulher, que vivia submersa
na pele daquela pacata dona de casa, emergira. Sua alma acercava-se de um
sentimento pungente de ruptura e evasão.
Embalada pela música
e pelas luzes, Ana viajava por outras realidades longínquas, mas possíveis.
Enfim, o espetáculo
terminou, mas, para Ana, apenas havia começado. Ela voltou à consciência e
retornou lentamente ao mundo real caminhando para casa na chuva. Uma chuva
mansa e morna de verão que era como um presságio.
Naquela noite teve
sonhos coloridos e belíssimos. No outro dia, acordou sentindo-se estrangeira. Estava
distante. Ainda suportava as tarefas domésticas, coava o café, despejava o lixo
e repetia o ritual do almoço. Na superfície do previsível, lavava a louça, mas nada era como antes. Ana
era febre e desejo em sua ausência.
Somente o circo fazia
sentido.
O marido e os filhos
não reconheciam a mesma Ana. Admirados, apenas viam a imagem daquela mulher apartada
deles, silenciosa e sozinha em seus pensamentos.
Passou-se uma semana,
Ana cada vez mais longe...
Em uma noite, o circo
partiu para sempre. E Ana partiu com ele.
Não podia mais
fingir, já não cabia naquela rotina.
Transfigurada,
atendeu ao apelo do sonho, ao chamado da vida.
Seria imperfeita se
ficasse.
A vocês, eu deixo o sono. O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!
Este eu mesmo carrego!
(Paulo Leminski)
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